terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O 4 de Janeiro deve ou não ser feriado???


Recorrendo a uma definição de feriado que encontramos na internet “feriado é uma data em que determinada ocasião é comemorada por uma nação, comunidade, religião, grupo étnico ou classe trabalhista. Os governos podem instituir feriados em nível federal, estadual (ou regional) ou ainda municipal, dependendo da extensão da importância comemorada”. (pt.wikipedia.org/wiki/Feriado).

O dia 4 de Janeiro em Angola, até a data de hoje, 4 de Janeiro de 2011, é considerado feriado, mas ao que tudo indica deixará de ser para tornar-se numa data de comemoração nacional, que alguns dizem ser a mesma coisa, só que nos dias de comemoração nacional todos trabalham, ao contrário do feriado.

Defendo que os legisladores ordinários deveriam manter esta data, que pela sua história demonstra bem a importância que teve para despertar as consciências de milhares de angolanos daquela época.

E defendo igualmente porque de acordo com a história “a revolta da Baixa de Kassange surgiu em consequência dos maus-tratos de que eram submetidos os autóctones, obrigados a trabalhar como contratados na fazenda de produção algodoeira denominada "Cotonang", pertencente a então sociedade Luso-Belga. Cansados de tanta exploração e sujeitos a condições desumanas, situação aliada ao aumento dos impostos pagos por estes aos fazendeiros brancos, os nativos decretaram uma greve geral na Baixa de Kassange (Malange) a 4 de Janeiro de 1961. De acordo com o historiador Pedro Gabriel, em resposta a esta acção heróica dos angolanos que exigiam por uma remuneração condigna e melhoria das condições laborais, a aviação fascista portuguesa bombardeou impiedosamente a referida localidade com o recurso às famosas bombas de extermínio em massa, denominadas "Nepal", matando cerca de 20 mil compatriotas”. (ANGOP 4/01/2009 – online)
Segundo a versão oficial do 4 de Janeiro de 1961, o boletim informativo do Governo informava em 2008 que “mais de mil camponeses da ex-Companhia de Algodão de Angola (Cotonang), foram barbaramente assassinados pelo exército colonial português ao exigirem a isenção de pagamento de impostos e a abolição do trabalho forçado. Os acontecimentos, que se estenderam a toda a região da Baixa de Kassanje até Março do mesmo ano, envolveram milhares de tropas e policias, que chegaram a utilizar a aviação para reprimir os manifestantes. A acção reinvidicadora aumentou a consciência de liberdade e emancipação do povo angolano, influenciado pela degradação das condições de vida e pela independência de alguns países africanos, com destaque para o antigo Congo Belga, actual República Democrática do Congo. Os acontecimentos da Baixa de Kassanje provocaram a fuga de centenas de milhares de angolanos para os países vizinhos e são considerados por vários historiadores como um dos principais marcos da luta de libertação nacional contra o jugo colonial em Angola, porquanto deu uma visão mais objectiva à comunidade internacional sobre o que realmente se passava no país e nas outras colónias portuguesas em África”. Fonte: BIGA n.º1, Janeiro-Fevereiro de 2008.
Verifica-se que numa e noutra versão os números são contraditórios, porém em comum têm o facto de considerar o acto dos camponeses como notável e de grande inspiração para todos os outros actos posteriores.
Então porquê retirar esta data do leque de feriados nacionais?
O partido no poder entendeu há uns anos atrás tornar o 4 de Janeiro feriado nacional em honra aos mártires da repressão colonial, até aqui tudo bem; porém uma mente brilhante no final do ano de 2010 entendeu que temos muitos feriados nacionais e que portanto temos que retirar alguns; acto contínuo apresentaram uma proposta na assembleia nacional para que o 4 de Janeiro seja uma comemoração nacional e não um feriado.
Quando deu dignidade tardia à esta data, o MPLA tentou redimir-se do facto de ao longo de mais de 25 anos não render a devida homenagem aos heróis da Baixa de Kassange, pois durante este tempo todo não se falava nesta data nem nestes heróis, que pelo simples facto de não estarem politicamente ligados àquele partido, não mereciam ser referenciados.
Não será com a retirada do 4 de Janeiro de feriado nacional que iremos ter menos feriados em Angola; Devemos é reconhecer as datas que são apartidárias e que verdadeiramente todos os angolanos nelas se revejam, e o 4 de Janeiro é das poucas datas em que isto acontece.
E nem é sequer pela quantidade de pessoas que morreram neste dia, pois se assim fosse teríamos de instituir um feriado nacional para os mártires da guerra civil, mas pela intensidade, coragem e determinação demonstrada pelos nossos irmãos na Baixa da Kassange.
Tão pouco pelo facto de no próximo ano ninguém deixar de trabalhar por já não ser feriado nacional, mas pelo facto de em Angola existirem muitos feriados que não correspondem de facto a feriados nacionais – como mulher e jovem, os dias escolhidos para o da mulher angolana e o da juventude angolana, não são representativos, pois o dia 2 de Março e o dia 14 de Abril são datas dos heróis do MPLA e não de todos os angolanos. Para mim o verdadeiro dia da mulher angolana deveria ser o dia 17 de Dezembro, data da morte da Rainha Njinga Mbandi (uma vez que não se sabe a data do seu nascimento), pois não existe ninguém em Angola que questione a autenticidade deste símbolo verdadeiramente nacional que foi a Rainha Njinga.
Alguns sectores da nossa sociedade denunciam que só se quer retirar o dia 4 de Janeiro, para que este não ofusque o dia 4 de Fevereiro, que de forma indigna, foi um dia reivindicado por Mário Pinto de Andrade, como tendo sido um acto preparado pelo MPLA.
A questão dos feriados nacionais é muito delicada, uma vez que em Angola com excepção do dia do Trabalhador, de África, da criança e dos feriados religiosos – num Estado Laico – todos os demais feriados que tivemos ao longo destes 35 anos de independência estavam directamente ligados ao partido no poder, o MPLA. Os outros dois partidos históricos a FNLA e a UNITA também poderiam reivindicar feriados nacionais para as suas datas históricas; o primeiro fê-lo com o 15 de Março, que agora passou a data de comemoração nacional considerada extensão da luta armada.  
            A retirada do 4 de Janeiro como feriado nacional demonstra claramente intolerância política e arrogância do maioritário, que nem sequer respeita a nossa cultura de respeito pelos mortos e principalmente mortos que eram nossos irmãos e de forma muito heróica tombaram por não aceitar uma situação injusta e exploradora.
Neste momento não me intimida nada dizer, depois desta falta de respeito para com os nossos heróis:
Abaixo a intolerância política, abaixo a arrogância maioritária!!!
Viva os Mártires da repressão colonial!!! Viva a Baixa de Kassange!!!

Sem comentários:

Enviar um comentário